OPA Finibanco. Foi o Montepio a prioridade?

Em meados de 2010 o Montepio decidiu comprar o Finibanco.
Tudo decorreu num ápice, assente na garantia de que “a operação tinha sido longa e profundamente  estudada” e, como noticiava a Lusa, em 2 de Agosto, “Estimamos que as sinergias sejam atingidas até um prazo máximo de 18 meses e avaliamo-las em 70 milhões de euros, disse o banqueiro (Tomás Correia)”.
A aprovação em AG foi um voto de confiança  no CA e nos restantes Corpos Sociais, em particular no Conselho Geral,  órgão delegado da AG para análise de decisões de grande envolvente técnica, como é o caso.
Os 18 meses  passaram e em vez do regozijo cresce a sensação de logro, tal é o desfasamento entre o cenário prometido e a realidade actual.

A)     O  valor real do FINIBANCO.

A Holding Finibanco (grupo familiar), com o afastamento, por motivos de saúde,  do seu líder e fundador , Álvaro Costa Leite, em 2007, e  apanhada pela crise mundial  entrou em declínio crescente,   com 57 milhões de prejuízos, em 2008.  O banco seguiu-lhe as pisadas  com degradação acelerada, de 2008 a 2010, resultante de problemas graves na Solvabilidade, na Qualidade de crédito, na Rentabilidade, na Eficiência,  e reflectidos nos  Resultados Líquidos.

INDICADORES DE REFERÊNCIA DO BANCO DE   PORTUGAL
2007 2008 2009 2010
1. Solvabilidade
Racio de adequação de
fundos próprios de base   Finibanco 5,1% 6,8% 8,2% 6,2%
2. Qualidade do Crédito
Crédito incumprimento/
Crédito total 2,3% 2,2% 3,0% 5,0%
3. Rentabilidade
Resultados antes de impostos /
Capitais próprios líquido   médio 22,5% -0,4% -8,1% -37,0%
4. Eficiência
Custos de funcionamento +
amortizações / Produto   bancário 60,7% 83,0% 85,2% 104,8%
RESULTADOS LIQUIDOS 22.100 878 -9.707 -55.832

 Para adquirir o Finibanco a AM  elevou o capital da CE para 1.245 milhões € passando a comprometer  45% do seu Activo,  um agravamento  considerável de risco  à sua sustentabilidade.
Mas, cerca de metade do valor do aumento de 445 milhões € esfumou-se de imediato na desvalorização do património do FINIBANCO.

     CAIXA ECONÓMICA                  (milhares   €)
2009 2010 2011 (2011-2010)
CAPITAL 760.000 800.000 1.245.000 445.000
 Reservas    Reavaliação -28.600 -75.623 -302.740* -227.117

* Integra pela 1ª vez o Finibanco.

Foi um Banco  com fortes problemas estruturais,  com valor bolsista de 208 Milhões (Junho) que escondia mais 56 milhões de prejuízo e  património sobreavaliado em cerca de 200 milhões,  que  o Montepio decidiu comprar (Julho) por 341 Milhões. No decurso dum
“estudo longo e profundo”,  numa negociação amigável em que não se conheciam outros concorrentes interessadas na aquisição.
É, pois, legitimo concluir que tudo o que aconteceu, em 2010, no Finibanco foi com o conhecimento e acordo  do Montepio, nomeadamente:
i)  a apresentação das contas do 1º semestre, em Julho,  com um lucro de 1,3 Milhões,  para um exercicio que acabou num prejuizo de 55,832 Milhões.
ii) a sobrevalorização  artificial da compra “segundo a RTP, o regulador (CMVM) já terá entrado em campo para investigar eventuais situações de abuso de informação privilegiada, uma vez que, nos últimos três dias, as acções valorizaram 22%, com um volume de negócios muito acima da média” ( foram os principais accionistas do FINIBANCO que estiveram no mercado a adquirir acções).
iii) O crescimento do quadro de Pessoal em 52 unidades nos níveis de Direcção, Chefias e Técnicos- sem sentido num banco com estrutura sobredimensionada e em fase de aquisição

 Finibanco por categorias profissionais
2009 2010 DIF.
Administração 2 2 0
Direcção 83 97 14
Chefia 283 297 14
Técnicos 382 406 24
Administrativos 467 466 -1
Outros 17 16 -1
TOTAL 1.234 1.284 50
Era interessante saber quem foram os agraciados e a sua evolução após  a integração no Montepio.
B)    900 postos de trabalho excedentários.

Ficámos  a saber , em Janeiro 2012, que a OPA tinha libertado cerca de 900 postos de trabalho.  O número é brutal – equivalente a 60% a 70% dos colaboradores do FINIBANCO – e nunca antes tinha sido mencionado.
Porquê e para quê,  uma Associação Mutualista chama a si um processo de  angústia familiar e social de tão elevada dimensão? Onde estão as contrapartidas que  justificam este envolvimento contranatura?
Não só não existem,  como os excedentários resultam da grande sobreposição da rede de 150 balcões do Finibanco com a da CE, ao contrário da complementaridade afirmada na AG que aprovou a OPA.
O Presidente Tomás Correia declara que  “ Tudo será feito no maior respeito pelas pessoas e respectivos postos de trabalho, sem um único despedimento”.  O que significa esta declaração e quem acredita nela?
A ironia de muitos trabalhadores do Finibanco, no Facebook,  e a reacção dos Sindicatos, com manifestações na Rua do Ouro – publicidade que não desejamos – respondem claramente.
E,  quem fala pela defesa dos interesses da massa associativa, pela rentabilidade e sustentabilidade da AM e da CE? Quem paga os 30 Milhões €/ano de salários dos excedentários?
Estamos perante os mesmos responsáveis que viram nos beneficios  pagos aos associados a grande ameaça à sustentabilidade da AM, evocando números ridículos face à prodigalidade desta OPA?

C)      O PROCESSO DE DECISÃO  foi subvertido e corrompido.

O Conselheiro ,e economista,  Eugénio Rosa votou contra a OPA no Conselho Geral (CG)  e divulgou no seu blogue as razões porque o fez:
i) Porque o CG dispôs,  apenas,  de três horas para tomar conhecimento verbal da operação e decidir sobre a mesma.
ii) Porque o Finibanco acrescentava à CE: apenas 16% de Activos e Recursos; contra 46% de Custos de Funcionamento; e uma rede de 150 balcões, dos quais 80 sobrepostos  com os da CE.

Três horas e apresentação verbal,  foi o tempo e as condições em que  a maior operação financeira da história da Instituição foi aprovada pelo CG.
Ficámos igualmente a saber que, então,  havia informação disponível  que não só não confirmava a excelência do negócio, como fazia adivinhar a realidade actual.
É agora claro que só um núcleo muito restrito (CA) decidiu este dossier –  o que nos leva a indagar sobre a utilidade de remunerarmos principescamente, e nalguns casos ilegalmente, os restantes Corpos Sociais.

Os dezoito meses para  haver evidências dos beneficíos da OPA estão  ultrapassados.
A família Costa Leite, o Banif e António Oliveira venderam um banco carecido de intervenção, mas o Montepio comprou-o como se estivesse em ascensão.
O sistema financeiro português e o Governo de então  ficaram com menos uma dor de cabeça a juntar às do BPN e do BPP.
Nós ficámos com o logro.  A AM não obterá rendimento dos 45% do seu  Activo investidos na CE, em 2011 e 2012, para já,  e tem em mãos o drama dos excedentários, com todo o cortejo de implicações sociais associado

Este ano há eleições. E o Novo Montepio já nos habituou à gestão por ciclo eleitoral. É ano de caça ao voto e de não agudizar tensões. Depois dos votos contados novas cruas realidades emergirão.

É preciso  regressar  ao Mutualismo, ao projecto social da AM e às necessidades de protecção complementar dos associados.
A encenação e a magia da propaganda do Novo Montepio já não  encobre que são os gestores do ciclo  em que a Instituição efectuou o maior número de aquisições de empresas. Em que a AM triplicou o investimento na CE. Mas,  em que a AM, literalmente, nada recebeu de retorno dos investimentos feitos. A satisfação de associados e colaboradores é pobre. E o Mutualismo foi enterrado.
Este é o balanço  que se acentua no final destes 9 anos.

About Transparência e Escrutínio

Autor: Sócio nº 28.332 do MG, desde 1966. Espaço de comentário e reflexão sobre a evolução e relação do Montepio com a Sociedade Portuguesa. Pretende defender os valores mutualistas, a Missão da AM e interessar os associados na vida da AM.

2 responses to “OPA Finibanco. Foi o Montepio a prioridade?

  1. Joao Marques

    Ao fim de 22 anos de banca, apareceu o MG para acabar com uma carreira. Foi um logro de principio ao fim! Antevi este resultado, faz algum tempo! Hoje, no desemprego, tenho aos 50 anos de repensar toda uma vida! Não me surpreenderia tanto se fosse um banco comercial! Agora um banco assente na solidariedade? No mutualismo? Que paradoxo!
    O grande embuste para mim, foi a dissipação rápida da alegria inicial, ao nos apercebermos que os discursos eram ocos, políticos, sem qualquer conteúdo! Pena de nós que aguardamos agora o dia do subsidio de desemprego! Pena de quem, sem condições e numa total ilegalidade, foi para Lisboa! Pena acima de tudo, de todos os mutualistas bem intencionados, subjugados ao caciquismo de quem ordena! Uma palavra para duas realidades duras e de extrema desilusão (mais ainda) : o papel inócuo, vazio e apagado do SAMS Quadros (por contraposição ao SNB – quem tiver “dois dedos de testa”, afaste-se enquanto é tempo daquele pseudo sindicato); o papel ridículo e desumano do pretenso DRHumanos : mero eufemismos para um departamento de pessoal, a lembrar os piores tempos duma sociedade injusta, tirana, sem qualqer pingo de humanismo.
    O MGeral está bem neste País! Melhor, acho que deve ser a instituição que melhor espelha este País!
    Graças ao MGeraL, a Banca para mim, já era! Deve ser a única coisa que lhes tenho de agradecer.
    JM

  2. Ex Finibanco

    Muito bem, João!!!
    Pena que poucos tenham a tua coragem para dizer as verdades. Se existissem, este país estaria certamente melhor, e este blog teria mais participações. Todos falam e comentam, mas não fazem nada …

    É sempre chocante ver gente dedicada, trabalhadora e muito conhecedora ser tratada sem dignidade. Não admira por isso que entre aqueles que foram para Lisboa já haja quem esteja internado em alas psiquiátricas!
    Todo o ser humano tem limites, e eles não são iguais para todos.

    É pena que o Montepio não se aperceba da situação que criou, com clivagens muito fortes entre os seus trabalhadores. É uma situação que vai demorar muito, muito tempo a dissipar-se, com óbvios prejuizos para a instituição.

    João, boa sorte! Tu mereces ….

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