Montepio, património da sociedade portuguesa

Os portugueses, e não só, confrontam-se com a maior crise económico-social da sua existência e revelam níveis de indignação  não sentidos desde o 25 de Abril. Explicadores  explicam a necessidade dos sacrifícios patrióticos em favor da economia nacional – eufemismo que a todos iguala: corruptos e honestos; ricos e pobres; beneficiados e prejudicados. Os explicadores  esquecem que esta peça teatral  –  o País – está em cena há 40 anos. Não é o trabalho, a concorrência, a  competitividade, ou a recompensa do mérito que  indigna. O que  indigna é a orgia de  tramóias,  conluios,  favores e  privilégios dos  que “gerem” o que é de todos.  O que  indigna é a  impunidade com que estes predadores  se movimentam nos sectores públicos e associativos (3º sector), seu habitat natural.

O  Montepio  sempre foi  uma presa cobiçada. Ter o poder de decidir sobre milhares de milhões de crédito ou gerir orçamentos fabulosos dispensa mais justificações.  A sua gestão nunca foi exemplo de competência e transparência,  reconhecida ou recomendada, no passado ou no presente.  A sua história revela que, por regra,   o “amor”  dos dirigentes ao  mutualismo  nasce e morre com a duração dos mandatos.  O fenómeno recente do surgimento de várias  candidaturas aos actos eleitorais, sendo desejável e saudável, não esconde, também, que o Montepio  está cada vez mais  apetitoso.

O Novo  Montepio prometeu a modernização e o Mutualismo do seculo XXI. Esperava-se  o reforço das respostas  às necessidades sociais actuais. Esperava-se novo vigor nos valores mutualistas – mais transparência, mais  escrutinio, mais  participação associativa. Confiou-se, esperou-se  e … acordámos.

É, agora,  bastante evidente que a motivação  do  Novo Montepio  é o Grupo, o Banco e  os “negócios”.  O investimento cresce, o Grupo aumenta, mas os associados, os pensionistas e os colaboradores dele não beneficiam, pelo contrário.

Sorrateiramente, acaba de matar 170 anos de Mutualismo Solidário, deixando os portugueses mais desamparados.  A solidariedade e a finalidade não lucrativa da Instituição são agora um pretexto para justificar a existência de um Grupo económico.

Evoca as elevadas responsabilidades com os associados e pensionistas e preocupa-se com a sustentabilidade futura da AM,  argumento  poderoso a  que ninguém fica indiferente. Mas, não basta evocar e preocupar. É preciso avaliar a crónica fraca capacidade de produzir riqueza, bem como a também crónica elevada factura do custo do seu funcionamento  (follow the money). É preciso destrinçar as causas externas, das internas. É o Montepio imune ao doentio contexto nacional?  Exposto está!  A transparência e o escrutínio é que permitem avaliar do seu estado de saúde.

O  futuro do Montepio está claro na cabeça de alguns  e as peças  do  puzzle –  desconhecido de todos nós –  estão a ser conjugadas e arrumadas:  a compra do Finibanco (uma história por fazer);  o novo  Regulamento de  Benefícios (aprovado à socapa); o recente Congresso das Mutualidades (tratou da governação das AM); o recente  Código de Conduta (compara os associados a pequenos accionistas  ???), não são acontecimentos desconexos com a próxima  Revisão dos Estatutos (a governação será dominante) e com  as eleições do próximo ano.

O Montepio  vai para além dos associados e é património da  sociedade portuguesa. É importante e grande de mais para ser decidido não se sabe onde, nem  por quem.  A AM deve proporcionar à massa associativa,  um meio de comunicação onde os associados   possam  comunicar entre si – em particular quando  chamados a decidir sobre grandes opções ou acontecimentos da Instituição.

Ter poder e meios para promover o esclarecimento e a transparência e, intencionalmente,  não os utilizar,  é uma opção com leitura própria.

About Transparência e Escrutínio

Autor: Sócio nº 28.332 do MG, desde 1966. Espaço de comentário e reflexão sobre a evolução e relação do Montepio com a Sociedade Portuguesa. Pretende defender os valores mutualistas, a Missão da AM e interessar os associados na vida da AM.

2 responses to “Montepio, património da sociedade portuguesa

  1. birdo

    ..Pena é que a massa associativa ande tão arredada dos problemas da associação..
    este afastamento dos associados dá azo ao aparecimento de grupos que nada tendo a ver com mutualismo, dele se aproveitam para benefico próprio e do seu grupo de interesses…….
    mais triste ainda é asssitir a assembleias onde os associados com vinculo laboral com a associação se comportam duma forma acritica e desinteressada como se o seu futuro não dependesse da instituição.
    ..enfim tempos dificeis, onde encontrar soluções não é fácil…..

  2. Helia Alves

    Muito bem João!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: